segunda-feira, 11 de abril de 2016

Habilidades não óbvias que podem ajudar o líder financeiro em tempos de crise

Nesses tempos de crise, somos praticamente bombardeados diariamente por artigos discorrendo sobre os desafios e o papel do líder de finanças diante desse contexto. Aliás, dentre os diversos documentos que recebi e li nos últimos meses, um dos melhores e mais bem elaborados, na minha opinião, foi a compilação de artigos feita pela Deloitte (disponível no link abaixo). 

Ao contrário do que possa parecer pela leitura do parágrafo acima, não estou escrevendo esse post apenas para sugerir a leitura desse ou daquele artigo (apesar de este ser um dos objetivos desse blog). Meu objetivo, um tanto quanto pretensioso, devo admitir, vai um pouco além, pois pretendo discorrer, de forma breve, sobre algumas habilidades não óbvias no universo financeiro, que quando combinadas com as habilidades cartesianas inerentes ao mundo das finanças, permitem ao líder financeiro ter uma visão holística que, em tempos de crise, aumentam em muito as suas chances de sucesso. 
Não estou aqui menosprezando as habilidades cartesianas, pois às considero igualmente importantes. O ponto é que sobre elas, as competências e habilidades cartesianas, existe um número infindável de publicações, de forma que seria pouco produtivo abordá-las aqui, já que o propósito desse blog é exercitar o "pensar fora da caixa".
Se a essa altura, você, meu caro leitor, espera encontrar nas próximas linhas conceitos heterodoxos ou pouco conhecidos, lamento decepcioná-lo, pois vou discorrer sobre habilidades extremamente simples (pelo menos no conceito) como empatia, serenidade e discernimento.

Sim, empatia é uma das habilidades essenciais de qualquer líder, e o líder financeiro não é exceção a essa regra. Empatia é a capacidade de enxergar as coisas pela ótica do outro, ou, em bom português, sentir a dor do outro. Algo que, na minha opinião, é fundamental para que o líder financeiro possa calibrar adequadamente suas estratégias, principalmente em tempos de crise. 
Para elaborar estratégias vencedoras, o executivo financeiro precisa testá-las sob a ótica dos stakeholders que por elas serão afetados. Sem isso, o sucesso dessas estratégias estará à mercê do acaso.

Sei que parece óbvio falar que um executivo financeiro precisa ter serenidade. Contudo, se fossemos listar aqui os casos de insucesso capitaneados por executivos financeiros devido à falta de serenidade, acabaríamos por escrever um livro e não um post. E me refiro a coisas práticas, como por exemplo, exagerar nos cortes orçamentários ou na venda de ativos (em tempos de crise) ao ponto de inviabilizar a operação a médio e longo prazos. 
Ter serenidade para analisar profunda e rapidamente as oportunidades e as ameaças em tempos de crise, é fator decisivo para o sucesso das estratégias que forem pensadas e implementadas pelo líder financeiro.

Outra habilidade de extrema importância, não só em tempos de crise, é o bom discernimento. Habilidade que aliás, já foi objeto de um outro post meu aqui no blog (http://gestaocontemporaneabyjorgefelisberto.blogspot.com.br/2015/01/em-deus-nos-acreditamos-todos-os-outros.html). 
Fazer o correto julgamento dos fatos e dados é crucial para ser assertivo nas decisões, seja na crise ou na bonança. Por exemplo, não conseguir avaliar corretamente (discernir) o tempo de duração de uma crise, pode levar à elaboração de estratégias pouco eficazes. 

Enfim, como sugeri num dos parágrafos acima, nenhuma dessas habilidades (e tantas outras que não citei aqui) irá, isoladamente, fazer grande diferença no resultado das nossas ações a frente da área financeira ou de qualquer outra área. 
Contudo, penso que quando combinadas com habilidades mais elementares e cartesianas, como por exemplo a visão estratégica, elas farão grande diferença e aumentarão em muito as chances de êxito do líder financeiro, principalmente nesses tempos de crise.  

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Não basta só acreditar que é possível

Em tempos turbulentos como os que estamos experimentando atualmente, não passa um dia sequer sem que alguém do nosso relacionamento poste nas redes sociais alguma mensagem motivacional do tipo “só vence quem realmente acredita que pode vencer” ou então, “ele não sabia que era impossível, foi lá e fez”.

Não quero aqui desqualificar esses e tantos outros mantras da vida moderna, pois também acredito no efeito placebo que eles exercem sobre nós. No entanto, me preocupa que algumas pessoas acabam se posicionando de forma passiva, quase que religiosa, frente às adversidades da vida, apostando todas as suas fichas apenas na crença, esperando que um simples ato de fé mova montanhas.

É verdade que para vencer é preciso antes de mais nada acreditar que a vitória é possível. Porém, é preciso fazer dessa crença um plano de ação consistente e executá-lo! Apenas crer, por mais importante que seja, não vai por si só nos levar a vitória. Acreditar é apenas o impulso inicial. O sucesso e a vitória vêm de fato daquilo que fazemos após esse impulso. 
Nosso saudoso ídolo (digo “nosso” por considera-lo uma unanimidade) Ayrton Senna, acreditava muito na sua capacidade de vencer. Acreditava tanto, que certa vez, chegou a dizer que tinha "necessidade" de vencer. Porém, o sucesso indiscutível do nosso grande ídolo foi forjado a ferro e fogo. A sua fé, foi apenas o motor de arranque que o impulsionou. A partir daí sua determinação e obstinação é que foram o verdadeiro combustível que alimentou sua trajetória vitoriosa (desculpem o jogo de palavras associadas ao automobilismo, mas julguei apropriado dada a referência feita ao ídolo maior desse esporte). 
Também não usei a palavra determinação à toa. Determinação, que vem do latim Determinare, que significa "definir um limite, um fim para algo", é, na minha opinião, o predicado que de fato torna as pessoas capazes de realizar grandes feitos. 
Pessoas determinadas são capazes de estabelecer limites que vão além do que é convencional, do que é óbvio. E, nesse exercício de enxergar além do óbvio, essas pessoas enxergam claramente os desafios que terão que enfrentar para atingir seus objetivos e se preparam para o embate, enxergam também as renuncias que terão de fazer e aceitam pagar o preço sem culpa e tão pouco auto piedade. E é isso que as torna capazes de realizar coisas que vão além daquilo que muitos julgam ser possível.
Cabe aqui, fazer referência a um artigo do professor Abilio Diniz, que de certa forma me inspirou a escrever sobre esse tema que tem rondado meus pensamentos. Eis o link para o artigo do mestre: 

A essa altura, alguns de vocês já devem estar pensando: então é fácil, baste acreditar no "próprio taco" e ser determinado que a vitória está garantida. Só que não (risos). Por mais fé que tenhamos, por mais certos que estejamos dos nossos propósitos e por mais determinados que sejamos, "Deus e o diabo jogam dados", e como em todo jogo de dados, o acaso por muitas vezes define o sucesso ou o fracasso. Mas até mesmo quando os resultados são definidos pelo acaso, a determinação faz a diferença. Pois as pessoas realmente determinadas não se deixam abater pelas derrotas. Elas seguem tentando a vitória. Movidas pela certeza de que ao final, se não atingirem o seu propósito, ao menos terão combatido um bom combate.

sábado, 21 de novembro de 2015

Estaríamos nós negligenciando o Risco Moral?

Noutro dia, durante uma discussão corriqueira com um colega de escritório sobre uma decisão que envolvia uma certa dose de risco, ponderamos a certa altura sobre a questão do risco moral. Estaria aquela decisão (prestes a ser tomada) gerando risco moral? Na dúvida, acabamos voltando atrás e decidindo não seguir em frente.  A partir desse episódio, me pus a observar com maior atenção os processos de tomada de decisão dos quais participei, seja como ator coadjuvante ou personagem principal, e desde então uma pergunta me assombra: 
Estaríamos nós negligenciando o risco moral nas decisões que tomamos?

A expressão risco moral (do inglês moral hazard) define um tipo de falha em que a existência de um seguro contra um determinado risco aumenta a probabilidade de ocorrência do evento que origina esse risco. Por exemplo, o dono de um carro que esteja segurado contra roubo poderá deixar de ser tão cuidadoso na proteção do seu veículo dado que a existência do seguro reduz o incentivo para a prevenção. 
Os exemplos variam tanto quanto as definições que atualmente são facilmente encontradas na internet, mas não me pus a escrever nesse lindo sábado de primavera para polemizar acerca de qual seria a melhor definição de risco moral. Meu objetivo é gerar uma reflexão e, com sorte, também assombrar alguns dos leitores desse post, como eu próprio estou assombrado, quanto a estarmos negligenciando o risco moral nas nossas decisões.

Para início de conversa, minha definição de risco moral vai muito além das definições tradicionais, normalmente voltadas para o mundo corporativo (mercado financeiro em especial). Vejo como risco moral qualquer ação que vise mitigar um determinado risco ou obter um determinado benefício, mas que quando implementada de forma exagerada acaba por ampliar a possibilidade de ocorrência desse risco ou gerando um prejuízo maior do que o benefício obtido inicialmente. Por exemplo, um pai que de forma legítima e amorosa busca proteger seu filho(a), pode, ao exagerar na proteção, acabar aumentando as chances de algo indesejado ocorrer, pois o filho(a) superprotegido tenderá a negligenciar os riscos aos quais está exposto. Quem é pai, como eu, sabe do que estou falando. 
Claro que esse exemplo está aqui apenas para demonstrar o quão abrangente pode ser (na minha opinião) a definição de risco moral. No entanto, a expressão "exagerar", utilizada no exemplo acima, não está ali por acaso, pois na minha opinião é justamente o exagero que na maioria das vezes gera o risco moral. 
Assim como superproteger o filho(a) traz consigo a possibilidade de que algo de ruim aconteça com ele(a), é o exagero na dose de qualquer ação que gera o risco moral. Não é (isoladamente) o fato de termos o carro segurado que nos faz agir de forma negligente em relação às medidas de segurança, mas o prêmio muito alto (valor pago pelo seguro) ou a possibilidade de ter uma indenização acima do valor de mercado, que amplifica esse tipo de comportamento, seja ele consciente ou não. Em outras palavras, o que determina se uma substância vai agir como remédio ou veneno é a dosagem.

Sei que até aqui falei o óbvio, pelo menos para aqueles mais familiarizados com o tema. Mas assim como a expressão "exagerar" não foi colocada ao acaso no exemplo do pai superprotetor, também não é por acaso que decidi abordar a questão do risco moral de forma óbvia, pois é justamente esse ponto que mais me assombra: 
Se é tão óbvio que o exagero em determinadas ações acaba trazendo consigo o risco moral, por que então é tão comum presenciarmos decisões (as vezes das quais nós mesmos participamos) carregadas de risco moral? 
Por que gestores, na ânsia de tirar da frente problemas que estão impactando no curto prazo, tomam decisões com potencial para prejudicar suas organizações a médio e longo prazo? Vimos isso recentemente no escandaloso "caso Volkswagen", não é mesmo? 
Por que bancos, buscando aumentar seus lucros, encharcam o mercado com papeis tóxicos que a longo prazo têm potencial para gerar risco sistêmico de proporções globais? Como presenciamos em 2008 na crise do subprime. 
Por que em tempos de crise, alguns agentes financeiros elevam seus spreads de forma exagerada, sob o pretexto de estarem protegendo e/ou remunerando melhor os seus ativos, sabendo que na prática estão contribuindo para criar um contexto onde alguns dos seus devedores terão ainda mais dificuldades para honrar seus compromissos? 

Enfim, sei que para cada um dos porquês acima, têm pelo menos uma dúzia de respostas bem fundamentadas. Mas não é esse o ponto em discussão. Esse meu post não busca respostas e tão pouco tem a pretensão de trazer para a mesa qualquer tipo de discussão acerca dessa ou daquela teoria do capitalismo e suas consequências práticas. Meu objetivo é bem mais modesto, pois quero apenas fazê-los refletir de forma profunda, assim como eu, sobre uma pergunta simples e direta: 
"Estaríamos nós negligenciando o risco moral?" 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Playing a role as...

No início da minha carreira, portanto já a algum tempo atrás, eu não conseguia compreender porque na língua inglesa usa-se a expressão "interpretando um papel" (playing a role) para descrever o tipo de ocupação que desempenhamos em nossas organizações. Mas para não ficar filosofando e gastando energia para entender algo que não faria a menor diferença na minha vida (pelo menos era o que eu pensava naquela época), eu resolvia a questão assumindo que o uso dessa expressão só podia ser fruto do limitado vocabulário da língua inglesa.
Os anos foram passando, as experiências no mundo corporativo se acumulando e, de vez em quando, lá estava eu, tentando compreender porque raios o uso da tal expressão. E não é que numa bela manhã fagueira a ficha caiu e finalmente entendi o porquê! Mais que isso, não só compreendi o porquê, como passei a concordar em número, gênero e grau com o uso dessa expressão para definir o que de fato somos no mundo corporativo. Atores!
Sim, atores! Pois é isso que fazemos quando desempenhamos nossas funções nas organizações onde trabalhamos. Nós, sem exceção, do acionista ao porteiro, estamos na prática atuando.
Não estou aqui dizendo que no mundo corporativo todos estão apenas "fazendo de conta" e tão pouco insinuando que deveríamos estar. Afinal, depois de vinte e tantos anos de estrada, sei bem que a vida corporativa exige seriedade, empenho e dedicação qualquer que seja o papel a ser desempenhado. 
Me refiro à necessidade de percebermos que estamos performando um papel, separando de forma clara o ator (ser) do personagem (estar). E isso está longe de significar que devemos ser superficiais naquilo que fazemos, pois como todo bom ator sabe, para ter uma boa performance é preciso "vestir o personagem". Muitas vezes se faz necessário inclusive fazer laboratório para podermos mergulhar no universo do personagem. No mundo corporativo, esse laboratório nada mais é do que os infindáveis cursos, workshops e MBAs que fazemos no intuito de melhorar nossa performance ou nos preparar para papéis mais desafiadores (leia-se ascender na carreira). Mas, muito além da quase perfeita analogia entre o mundo das artes cênicas e o mundo corporativo, o que me fez de fato compreender e concordar com o uso dessa expressão para definir como deveria ser nosso comportamento nas organizações, foi o meu despertar para o fato de que se não enxergarmos as coisas dessa forma, estaremos fadados ao fracasso ou ao sofrimento. Fracasso, porque sem a noção de que estamos desempenhando um papel, muitos de nós falharão na tomada de certas decisões devido à falta de coragem para fazê-lo. Sofrimento, porque havendo coragem para a tomada dessas decisões sem a noção de que estamos interpretando um papel, estaremos fadados a tomar para si as dores daqueles afetados por elas.

Sei que no fundo as coisas não são tão simples assim, e separar o ator do personagem nem sempre é tarefa fácil. Principalmente porque a chave para o sucesso está em saber separar o ator do personagem sem, no entanto, largar mão da sensibilidade, sempre fundamental nesses momentos. Meu objetivo com esse post é instigá-lo a pensar sobre essa questão e, se você enxergar coerência nessa minha linha de raciocínio, começar a fazer esse exercício daqui para frente. Obviamente não se trata de uma receita de bolo, como aliás nada no mundo corporativo é, mas minha própria experiência tem mostrado que vale a pena tentar enxergar as coisas sob esse prisma, pois não fosse a adoção desse modelo mental, eu certamente teria falhado ou sofrido com algumas das decisões tomadas até aqui.